O que podemos aprender com a música sertaneja em 2021?

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Acontecimentos importantes na música sertaneja em 2021 podem nos ensinar muito e orientar os próximos passos

Se você prestou atenção na imagem que ilustra esta matéria e conhece um pouco sobre música sertaneja, pode estar se perguntando qual seria a relação entre a saudosa Marília Mendonça e a dupla hit do ano Israel e Rodolffo, além do fato de cantarem o mesmo estilo musical. Em 2021, tem mais a ver do que você pensa, e eu já vou te explicar.

Todos os anos têm os seus hits, e nem sempre a música sertaneja mais tocada é a melhor, como eu já disse aqui nesta coluna mais de uma vez. Vale pra Marília, vale pra Israel e Rodolffo e pra mais um monte de artistas bons. Mas esta matéria quer te convidar a fazer uma breve reflexão um pouquinho mais profunda do que as notas e acordes das canções do ano.

Confesso que passei muitos anos sem ligar a televisão no BBB. Eu assisti aos três primeiros e depois parei, achei que a fórmula já não tinha mais nada de relevante ou inovador para oferecer. Quando a emissora teve a ideia nem tão inovadora assim de colocar também gente famosa na casa (um beijo pro genial Silvio Santos e pra Casa dos Artistas), a mistura ficou mais interessante. Una-se a isso o contexto da pandemia e eu, professora, dando aulas remotas. Não virei propriamente fã, mas voltei a assistir em 2020.

Em 2021, eu estava curiosa pra ver se o sucesso do ano anterior iria se repetir. E aí apareceram a então anônima e carismática Juliette e o meu já conhecido Rodolffo, da boa dupla com Israel, mas que um monte de gente ainda não conhecia. “Batom de Cereja” estourou graças ao programa e o resto é história. Foi parar no top mundial. Alçou a dupla a um novo patamar até então inédito para eles. Não é nem de longe a melhor canção deles, mas deu ao seu trabalho e à sua boa música sertaneja a visibilidade que tanto buscaram por anos.

Pesquisando um pouquinho mais sobre a vida e a carreira de Israel e Rodolffo, fiquei impactada com o relato da oração desesperada que Rodolffo fez na véspera de receber o convite para o programa. Eu creio em um Deus que nos ouve e cuida de nós. Que muda histórias, que faz vidas estagnadas terem uma virada, que recompensa suor e trabalho duro.

A história do estouro de Israel e Rodolffo nos trouxe uma das primeiras lições de 2021 vindas da música sertaneja: a mudança pode estar logo depois da próxima curva do caminho. O problema é que a gente não enxerga direito depois da curva, e às vezes desiste, mesmo estando muito perto de alcançar. Rodolffo e até mesmo Juliette nos ensinaram que tendo fé, trabalhando duro e agindo com inteligência (ok, aqui mais a Juliette, que foi genial no BBB), quando a bênção chega e a virada acontece, não há força no mundo que possa impedir.

E aí, meses depois, fomos atingidos em cheio pela notícia mais triste do ano para a música sertaneja. Ainda não faz dois meses que o Brasil inteiro ficou estarrecido diante do falecimento prematuro de Marília Mendonça em um trágico acidente aéreo. No auge do sucesso, bem sucedida em todos os seus projetos, muito jovem, deixando órfão um menininho de 2 anos. Tanto talento ir embora desse jeito, não parecia justo! E nem jamais vai parecer, porque não é mesmo justo! Da mesma forma a vida, injusta, imprevisível e algumas vezes até cruel.

Nesses dias, desde a partida de Marília Mendonça, escrevi algumas colunas e várias matérias sobre ela. Parece que o assunto Marília não se esgota, e eu juro que não se trata de oportunismo de imprensa. Ainda parece que ela foi viajar, que daqui um tempo volta cheia de vida e de planos, jogando mais algum sucesso arrebatador na nossa cara. O assunto não se esgota porque ela não se esgotou. Marília vive nas entranhas da música sertaneja, nas parcerias, nas playlists de uma horda de fãs, no coração dos amigos, na saudade da família, no sorriso do filho na festa de aniversário.

Se há algo em comum no que pudemos aprender com os dois maiores acontecimentos na música sertaneja em 2021 é: a gente nunca sabe o que nos espera. Parece óbvio, mas a gente esquece. Vivemos fazendo planos, prometendo fazer isso ou aquilo, nos matando de trabalhar pra pagar as contas e adiando os encontros. A pandemia reforçou os adiamentos, mas mesmo antes disso, vivíamos às voltas com o urgente e nos esquecendo do mais importante.

Que em 2022 a gente possa abraçar a imprevisibilidade da vida como oportunidades de fazer diferente. Que a gente não desista antes da próxima curva se depois dela puder estar a realização dos nossos maiores sonhos. Que a gente entenda quando o caminho não vale a pena e possa gastar energia com mudanças de rota. E que nunca, nunca mais a gente adie os encontros nem esqueça do que realmente é importante. Pode ser a última oportunidade, o último abraço, o último beijos, as últimas palavras. Pode ser a última vez. A música sertaneja e a vida ensinam.

Sobre Dyala Assef: colunista do Movimento Country, escritora, professora universitária e ouvinte voraz de todos os estilos de boa música.