Entrevista: Bruno Gouveia, do Biquíni Cavadão, fala dos novos planos da banda

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Um dos maiores nomes do rock nacional, Bruno Gouveia, vocalista do Biquíni Cavadão, relembra trajetória da banda e fala sobre os planos para o futuro pós pandemia

Em entrevista ao Movimento Country, Bruno Gouveia abriu o coração ao contar histórias sobre o início da carreira e a trajetória do Biquíni Cavadão, uma das mais importantes bandas do cenário do rock nacional. Além disso, Bruno falou sobre os recentes lançamentos de singles que devem compor o novo álbum autoral da banda, “Através dos Tempos”, bem como dos planos para o futuro e a retomada da agenda pós pandemia.

O início da conversa tratou da longevidade do Biquíni Cavadão, que no início de 2022 completa 37 anos de formação. “Como eu costumo dizer, a última vez que eu pesquisei sobre isso já tinha mais de 50 milhões de músicas nas plataformas digitais. Pensar que as pessoas, dessas 50 milhões de músicas, escolhem uma música do Biquíni Cavadão que seja, para embalar a vida delas, para fazer parte da vida delas, isso por si só já é realmente motivo de gratidão eterna”, disse Bruno.

Dentre as músicas mais conhecidas do Biquíni Cavadão está “Vento Ventania”, originalmente lançada em 1991, como parte do quarto álbum do Biquíni Cavadão, intitulado “Descivilização”. “É uma música que a gente gostava muito dentre as que estávamos gravando. De repente, a gente foi convidado a fazê-la numa versão bem mais lenta do que a gente tocava. O produtor insistiu muito, ele tinha acabado de voltar de Londres, onde estava acontecendo uma cena muito forte do reggae eletrônico, e ele queria experimentar justamente esse ritmo com a música “Vento Ventania”, relembrou Bruno.

“Ele convenceu a gente com o seguinte argumento: se você toca muito rápido, canta rápido demais, as pessoas não vão perceber a beleza da letra, da melodia. A gente  gravou, mas não se convenceu totalmente. Ficamos um ano sem tocar a música no show e a gente sequer considerava ela como faixa para ser tocada nas rádios. Espontaneamente, os radialistas, que achavam essa música demais, colocaram pra tocar.”

Sobre o sucesso de “Vento Ventania” nas rádios, Bruno continuou: “Nós somos testemunho do poder do sucesso que estava nas mãos dos radialistas. A música se tornou um grande sucesso mesmo com a gente jogando contra. Uma vez também que a gente percebeu que ela era forte, nunca mais saiu do nosso repertório e talvez seja a mais forte representatividade do Biquíni Cavadão”.

“A época de ‘Vento Ventania’ foi muito importante na carreira do Biquíni Cavadão, porque até então a gente realmente considerava que talvez a banda não aguentasse a pressão do meio musical. Havia uma cobrança, era o último disco de contrato. Se as coisas não acontecessem direito com aquele disco, certamente não teria renovação de contrato, e numa época que você não tem tanta essa coisa independente, as plataformas, a internet, era quase como uma sentença de morte. Foi um disco muito forte”, afirmou.

Dentre as regravações da canção, está um projeto infantil do Mundo Bita, sobre a qual Bruno falou com muito carinho. “No ano passado, eu vi algumas regravações que o Mundo Bita estava fazendo, (…) e achei aquilo tão lindo, tão poético, que eu entrei em contato com os caras e disse que gostaria muito de fazer alguma coisa com o Biquíni nesses moldes. Uns 3 meses depois eles entraram em contato comigo dizendo que iriam começar uma nova série de regravações, e queriam começar justamente com “Vento Ventania. Para mim foi uma alegria imensa!”, afirmou o cantor.

A respeito da música “Zé Ninguém”, também de 1991, outro grande sucesso do Biquíni Cavadão, Bruno Gouveia afirma que a letra não é uma crítica política, ao contrário do que muitos pensam, e sim uma crítica social: “a letra dela surge de um questionamento de coisas do tipo Deus é Brasileiro, amar é sofrer, homem não chora. Então, inicialmente, era questionar as coisas que todo mundo tinha como verdade incontestável e absoluta”.

“Só que teve o Plano Collor, e nessa época nós artistas ficamos parados durante muito tempo, tal como numa pandemia, as pessoas ficaram sem dinheiro, naquele momento em que o Collor confiscou a poupança de todos os brasileiros. Aí, a gente pegou essa música de novo, e começou a reescrever lá com uma outra ótica, tentando fazer na verdade a apologia a pessoa comum, o Zé Ninguém, aquele sujeito que tá ali dizendo que cada dia leva um tiro que sai pela culatra”

“Sempre falo, ela não é uma canção política, é uma canção social, ao meu entender. Ela é tão desprovida desse lado político que já foi cantada em passeatas contra o Collor, contra a Dilma, contra o atual presidente (Jair Bolsonaro), e continua sendo cantada. Aliás, eu já soube que foram cantadas em passeatas a favor do presidente atualmente. O ponto é, ela não é política, ela é para falar do que nós brasileiros estamos vivendo, a situação pela qual estamos passando, ainda mais em tempos tão difíceis. É por aí que a música caminha”, afirmou o músico.

Sobre os quase 37 anos de carreira do Biquíni Cavadão e o momento oficial de fundação da banda, Bruno Gouveia afirma que considera como marco da fundação da banda o primeiro show que fizeram com público pagante. ” Não me lembro quando a gente ganhou, mas lembro que foi o suficiente para a gente comer uma pizza. Não foi grande coisa, até porque era um festival com diversos artistas naquele dia, nós tocamos apenas 5 músicas. Eu me lembro até a ordem: ‘Tédio’, ‘Timidez’, ‘Inseguro de vida’, ‘No mundo da lua’ e no bis a gente tocou ‘Tédio’ novamente”.

“Quando a gente olha a história, a biografia de muitas bandas, você descobre que às vezes ele se conheciam desde a infância. Eu gosto de fazer esse paralelo, quando é que você celebra a união com a sua companheira ou o seu companheiro? Quando é que você celebra isso? Alguns dizem que é o primeiro beijo, outros dizem que foi o dia do casamento, outro vai falar que na verdade foi no dia que pediu para namorar, outro fala que foi na transa. Não importa. Uma ocasião você escolhe, então eu poderia ter escolhido várias”, pontuou.

Quanto à relação do Biquíni Cavadão com outras bandas de rock brasileiras, especialmente no cenário dos anos 80, Bruno conta: “o Biquíni era meio um caçula nessa história toda. Primeiro que a gente começou depois, a Blitz furou o muro das gravadoras e foi contratada. Daí vieram bandas como Barão vermelho, Kid abelha, Paralamas do Sucesso, e aí então vem depois Legião Urbana, Biquíni Cavadão, Ira, Capital Inicial e Titãs.”

“Então, a gente se encontrava, mas nós éramos muito novos, e quando você tem 18 anos e o pessoal tem 23, 24 anos, é um abismo de diferença. Ainda assim, foi ótimo a gente ver tudo isso tão de perto. Estávamos realmente começando. Havia alguns que estavam ralando há muitos anos, então foi muito importante ver aquilo, aprender muito com a postura profissional deles, isso foi uma escola e tanto para a gente”, lembrou Bruno.

Bruno acredita que, atualmente, as bandas têm mais meios para a divulgação do trabalho, independente da aposta de uma gravadora. Segundo ele, “isso faz com que, às vezes, as coisas que uma gravadora talvez rejeitasse, depois ela volte atrás e perceba que aquilo era um sucesso em potencial, e assim alguns artistas estão conseguindo destaque. Isso é muito bom. Por outro lado, às vezes, a gente carece de uma opinião embasada de gente que trabalha com isso já há muitos anos, que tem uma experiência de marketing musical”.

“Desde 2007, o Biquíni é independente e de lá para cá, nós lançamos disco sozinhos, já lançamos discos com gravadoras, como foi o caso da Sony e da Som Livre, ou seja, a gente tem uma história, já aprendemos muito com eles, já trocamos ideias. Às vezes a gente que fazer o trabalho sozinhos, ou queremos fazer de uma forma diferente. Nós temos liberdade de poder escolher, e a internet facilita muito para isso. É importante ser dono do próprio trabalho”, afirmou.

“O rock já foi moda, mas agora o modismo é funk, é sertanejo, duplas femininas sertanejas, não importa. Não é o rock. Ao mesmo tempo, nós conseguimos viver na medida em que conseguimos trabalhar esse nicho, você fica o tempo todo buscando as pessoas que curtem o rock, mesmo que a música que esteja tocando não seja, e temos levado a nossa carreira muito por conta dessas coisas. Procuramos sempre fazer coisas novas, presentear o público com novas ideias, e deixar que eles conheçam um pouco do trabalho que está sendo feito”, pontuou Bruno.

A respeito do novo trabalho do Biquíni Cavadão, “Através dos Tempos”, Bruno afirmou que o tom otimista do álbum e das canções já divulgadas é essencial, especialmente ao longo dos tempos difíceis em que vivemos. “Achei que seria muito bom a gente voltar fazendo uma turnê só com os grandes sucessos da banda e músicas novas, e que essas músicas fossem bem para cima, porque são tempos muito sombrios, e nós pensamos justamente nesse disco para trazer otimismo e esperança”.

Sobre o retorno aos palcos em um contexto pós pandemia de Covid-19, o cantor disse que, “na verdade, já tem algumas coisas acontecendo. Vamos aguardar que as coisas retornem a normalidade. Por enquanto, shows ainda esporádicos, mas eu acredito que a partir de 2022, a gente tenha realmente uma turnê para fazer, em vários lugares do Brasil, se Deus quiser”.

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