Luan Santana e seu “The Comeback” têm mesmo potencial internacional?

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Luan Santana com seu EP “The Comeback” está de olho em carreira internacional, mas será que  potencial pra tudo isso?

No último dia 4 de novembro, Luan Santana liberou o EP “The Comeback“, junto com a música “Ilha”, única inédita do projeto (e a mais bonita do trabalho). Considerando o porte do artista, achei que o projeto foi pouco comentado, mas não se pode esquecer que a novidade de Luan foi um pouco ofuscada pela notícia da trágica morte de Marília Mendonça.

O EP “The Comeback” traz outros sucessos já lançados esse ano: “Assim Nasce um Bêbado”, “Sorria” e “Morena“, que chegou a comandar o topo das paradas. Junto do EP, Luan Santana está preparando uma nova turnê e, mais importante, mira uma carreira internacional. Até esse nome estrangeiro (“The Comeback” significa literalmente “O Retorno”) vem disfarçado de volta aos palcos brasileiros, mas tem a maior cara de Miami. É um nome que o gringo entende, e pode abrir portas lá fora.

Ok, nome em inglês não é suficiente para abrir portas pra ninguém, embora ajude. Talvez você esteja se perguntando aí se essa tal carreira internacional que Luan Santana vem ensaiando há um tempo tem reais chances de decolar, ou se é apenas um delírio. Pois eu te digo que tem chances sim, e vou explicar o porquê. Senta, que lá vem história.

Luan estourou no cenário sertanejo nacional em 2008, com a chatinha Meteoro. Nem todos os hits são realmente bons e muitas vezes cumprem o importantíssimo papel de colocar o artista sob os holofotes e dar a oportunidade de que precisava para, depois, mostrar que é melhor que aquele hit bobinho. Tá aí a insuportável “Ai se eu te Pego”, do excelente Michel Teló, que não me deixa mentir.

Confesso que Luan só entrou no meu radar pessoal na época da Copa do Mundo de Futebol de 2014, realizada no Brasil. Ele fez um comercial de um grande banco privado e havia deixado a barba crescer. Peraí, esse é o Luan Santana? Quanto tempo eu dormi, que esse garoto saiu da adolescência e virou um homem? Curiosidade atiçada, passei a conhecer o artista e seu trabalho. E gostei muito do que descobri.

Ele havia acabado de lançar o DVD “O Nosso Tempo é Hoje”, que tem a lindíssima “Tudo Que Você Quiser”, de Matheus Aleixo, hoje dupla com Kauan. É também desse álbum “Promete”, uma poesia em forma de canção, que revela um Luan letrista de mão che ia. Não se pode esquecer de “Te Esperando”, do mesmo trabalho, autoria de Bruno Caliman, a quem chamo de gênio pela terceira vez nesta coluna.

Mergulhei nos álbuns anteriores de Luan. Há algumas bobagens irrelevantes pelo meio, mas também há “Sinais” (“Ao Vivo”) “As Lembranças Vão na Mala” (“Ao Vivo no Rio”), “Te Vivo” (com aquele videoclipe de amolecer até o coração mais gélido) e “Esqueci de te Esquecer”, todas composições de Luan. As duas últimas estão em “Quando Chega a Noite”, que merecia ter virado DVD.

Em outubro de 2014, Luan Santana lotou um dos maiores teatros de Curitiba por 3 noites seguidas. Eu fui nos três shows, porque queria muito saber se aquele rapaz era bom ao vivo também. Ele é. Naquele final de semana eu entendi o tamanho de Luan Santana. Luanetes histéricas à parte, vi a PM fechar uma quadra inteira do Centro da cidade porque Luan ia sair do hotel e uma multidão o aguardava. Vi crianças pequenas, famílias inteiras e senhorinhas de 80 anos emocionadas nos shows.

Depois disso, Luan lançou o excepcional “Acústico”, que traz meu xodó “Escreve Aí” (de Bruno Caliman). A canção foi mostrada pela 1ª vez em um show em São Paulo, em uma apresentação deslumbrante. Foi parar no “Acústico”, mas seu arranjo não supera a versão ao vivo daquele show. De um jeito parecido, ele mostrou também “Eu Ando Mentindo Demais”, composição própria que acabou gravada por Thiaguinho, mas que precisava estar num álbum do Luan.

Ainda preciso exaltar “Fantasma”, dueto com a rainha Marília Mendonça (de Matheus Aleixo, de novo ele) e “Mesmo Sem Estar”, parceria com Sandy (Jeferson Jr/Umberto Tavares), ambas do álbum “1977”. Menção super honrosa para as lindíssimas “2050” e “Água com Açúcar” (do álbum “Viva”), adivinha composições de quem? Bruno Caliman, o gênio. Dos equívocos eu prefiro nem falar. Melhor esquecer de “MC Lençol e DJ Travesseiro” e a pavorosa “Check-In”, por exemplo.

Luan teve a “sorte” de encontrar com Sorocaba bem cedo, que apostou nele e se deu muito bem. Apenas sorte pode colocar artistas fracos nos holofotes, e depois de um ou dois hits, a maioria some. Apenas talento, por sua vez, não basta pra fazer um artista conhecido. Tem muita gente boa de quem nunca ouviremos falar. Quando as duas coisas acontecem juntas e encontram um artista inteligente na condução da carreira, acontece a carreira longeva e, por isso, treze anos depois, ainda estamos falando dele.

Em que momento o artista realmente cresce a ponto de não sair mais de cena? Qual é o ponto de virada que o coloca entre os maiores? Tendo a achar que, para a maioria, esse ponto é quando o artista toma as rédeas da própria carreira e tem autonomia para tomar as próprias decisões. Foi assim com Anitta, foi assim com Luan Santana. Junte a isso o fato de ele ser uma alma inquieta, um curioso e um perfeccionista que tem (muita) grana pra seguir investindo em novidades e para fazer o que realmente gosta.

Mas, e a carreira internacional? Será que vinga? Vejo Luan dando passos muito calculados em direção a essa carreira já há algum tempo. Cada vez mais ele tem se desvinculado da sonoridade do sertanejo e se aproximado do pop. Volta e meia investe em parcerias com artistas estrangeiros, busca uma estética mais cosmopolita  e seus videoclipes não devem nada às produções gringas. Acho que ele tem ousadia, qualidade e potencial pra alcançar o mundo. Só que pra isso, vai ter que rezar a cartilha do mercado internacional e cantar em outro idioma. Espanhol, pelo menos.

Eu sou apreciadora das músicas mais românticas, com letras mais poéticas, que Luan sabe escolher e compor muito bem, mas que vão na contramão do mercado das canções de pegação que exaltam a variedade de parceiros e não o amor que resiste ao tempo. Por falar em resistir, entendo que até Luan Santana precise se adequar a esse mercado, mas espero que ele não caia na tentação de fazer só o que o mercado pede e, com isso, perca relevância sonora. Nem só de números, views e streams vive a (boa) música, acreditem.

Do lado de cá, ficarei torcendo pra que Luan tenha êxito no que escolher fazer, que seja recebido de braços abertos pelo mercado internacional, mas que de vez em quando bata no seu coração uma saudade de cantar uns modões, ou de sentar com um violão nas mãos e cantar suas composições sem enormes produções. Melhor ainda se isso virasse show e turnê (deixa eu sonhar…). Acho Luan muito bom em (quase) tudo o que faz, mas nesse formato intimista, ele é imbatível.

Sobre Dyala Assef: Escritora e colunista do Movimento Country, professora universitária, cantora amadora nas horas vagas e amante de todos os tipos de boa música.

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