Marília Mendonça e as amizades: por que seu legado vai além da música?

Marília Mendonça colecionou amizades e deixou importantes lições que ultrapassam os limites do coleguismo corporativo

Há pouco mais de duas semanas, o Brasil inteiro ficou estarrecido diante do falecimento prematuro da Rainha da Sofrência Marília Mendonça em um trágico acidente aéreo. Como normalmente acontece em grandes tragédias de repercussão nacional, ficamos hipnotizados diante da TV e das redes sociais, chorosos diante das justas homenagens feitas a ela. Em 2015, com a morte de Cristiano Araújo, por exemplo, presenciei algo parecido. Mas, afinal, por que após vários dias passados, o grande público segue intensamente comovido com a partida de Marília?

Ao longo desses dias, me peguei muitas vezes refletindo sobre Marília Mendonça e sobre as lições que podemos tirar de tudo isso. O legado que ela deixou para a música, com seu trabalho impecável de composição, com suas gravações poderosas e seu discurso empoderado em prol da representatividade e autonomia feminina é inegável. Não há o que se discutir sobre isso e muito já foi dito. Musicalmente, Marília será eterna, sem sombra de dúvidas. Anos passarão e ainda falaremos dela e ouviremos suas canções.

Se os fãs e admiradores seguem se sentindo como súditos sem sua rainha, como falei aqui na coluna na ocasião do acidente, uma outra faceta de Marília Mendonça ficou evidente para quem acompanhou as homenagens. Muitos puderam conhecer um pouco da Lila, ou da Maninha, como a chamavam seus grandes amigos Henrique e Juliano. Vimos a Marília além do projeto Patroas com as amigas Maiara e Maraisa, porque ela tinha uma qualidade ímpar e cada vez mais difícil de encontrar: ela era uma agregadora. Um ímã que atraía a todos à sua volta. Dona de força e carisma incomuns, todos queriam estar com ela.

Você pode estar aí pensando que é óbvio que todos queriam estar próximos a ela, afinal era famosa, milionária, tinha enorme sucesso, era a cantora mais estourada do país há anos. Todavia, eu sinceramente acho que era mais do que isso. Obviamente, gravar uma parceria com ela aumentava exponencialmente a chance da canção virar hit, e, de fato, Marília Mendonça gravou um sem número de parcerias com artistas de vários ritmos e segmentos.

Ouvindo entrevistas de quem a conheceu ainda garotinha, de quem deu a ela a primeira oportunidade profissional, sabendo de sua história desde antes dela estourar nacionalmente (por acompanhar Henrique e Juliano, já falei disso aqui também), Marília Mendonça me parece que sempre entendeu, desde bem cedo, que construir relações profundas e ter amigos próximos, inclusive no ambiente de trabalho, facilita muito as coisas e deixa a vida mais leve.

Vivemos hoje em dia em um mundo extremamente competitivo. Qualquer pessoa que trabalhe em empresa, não importa o setor nem o porte, tem uma história pra contar sobre algum desafeto nesse ambiente corporativo, um colega pouco confiável, ou ainda muito fechado, com quem não é possível desenvolver uma relação minimamente afetuosa. Ok, trabalho é trabalho, a gente não é pago para fazer amigos. A questão é que passamos tempo demais no trabalho e qualquer ser humano decente se incomoda com esse clima hostil.

Refletindo sobre isso, pude me lembrar de algumas situações que eu mesma já vivi no ambiente corporativo. Há alguns anos trabalhei em uma ótima empresa. O escritório tinha boa estrutura, o salário não era ruim, o volume de trabalho era grande, mas nada que me assustasse ou que eu não tivesse plenas condições técnicas de dar conta. Mesmo assim, após um ano, eu pedi demissão. Saber por quê? Maus colegas de trabalho, gente tóxica, com quem você precisava cuidar o tempo todo para não levar uma rasteira.

Porém, em meio àquele caos, eu fiz uma amiga ali. Começou com coleguismo corporativo. Ela era uma pessoa sempre disposta a ajudar, competente, focada, inteligente. Rapidamente se transformou em uma amizade genuína, que tornou aquele ano tão pesado mais suportável. Saí da empresa e ela ficou. A amizade segue firme até hoje. Ficamos sem nos ver um tempo por causa da pandemia, mas jamais sem nos falar. Serei eternamente grata a essa amiga. Ela me ensinou que você pode ser muito bom no que faz sem ser arrogante, pode ter sucesso na sua vida profissional sem pisar em ninguém, e pode sim fazer amigos de verdade onde muitos só enxergam competição.

Marília Mendonça, tão jovem, há muito tempo já sabia disso. Uma mulher com inúmeras qualidades e defeitos, que parecia ser gente como a gente, e por isso nos identificamos tanto com ela. Por isso ainda sofremos sua perda de forma tão intensa, mesmo sem jamais termos trocado duas palavras com ela. Uma artista fenomenal que deixa lições que vão além da música. Aprendamos com ela, sejamos agregadores, façamos amigos verdadeiros, cultivemos relacionamentos profundos e vivamos mais leves. Obrigada, mais uma vez, Marília, por nos ensinar tanto!

Sobre Dyala Assef: colunista do Movimento Country, escritora, professora universitária e ouvinte voraz de todos os estilos de boa música.

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