Marília Mendonça e a homenagem do Prêmio Multishow: O que torna um artista relevante?

Marília Mendonça recebeu homenagem póstuma no Prêmio Multishow 2021, mas será que precisava tanto ou estamos apenas impactados pela tragédia?

Desde que Marília Mendonça nos deixou, há pouco mais de um mês, em decorrência de um trágico acidente aéreo, tem muita gente que trabalha com Internet, mídias sociais e plataformas de streaming surfando nessa onda. Muito já foi dito em podcasts e entrevistas ou escrito sobre ela. Ela recebeu homenagem atrás de homenagem. Já contei pra vocês aqui na coluna que essa partida tão prematura da Marília tem me deixado muito pensativa e tem me feito refletir sobre uma série de aspectos relacionados à música e também à nossa efêmera existência neste plano.

Por aqui já conversamos sobre o legado que Marília Mendonça nos deixou, sobre as lições de vida que vieram de sua simplicidade, já falamos de suas melhores músicas e parece que o assunto não esgota. A coluna é publicada aos finais de semana, mas eu sempre escrevo às sextas. Foi justamente em uma sexta-feira que o país ficou chocado com a perda da Rainha da Sofrência, que nos deixou todos meio órfãos de coisas que talvez a gente nem se desse conta de que fossem tão necessárias: talento (absurdo!) e a quebra de paradigmas.

Ainda assim, já me peguei questionando se ainda há o que se falar sobre ela, se já não dissemos tudo o que poderia ser dito e o necessário agora é seguir a vida. Não sei vocês, mas eu ainda sinto um nó na garganta quando penso nisso tudo, e mesmo não tendo qualquer relação pessoal com Marília Mendonça, ainda é difícil de acreditar no que aconteceu. Parece que estamos presos em um pesadelo coletivo, esperando um chacoalhão pra acordar.

Nos últimos dias, dois acontecimentos muito distintos me fizeram refletir sobre a pertinência de se continuar falando sobre Marília Mendonça. Comecei a pensar sobre a relevância dos artistas, e acho que essa questão sempre acaba passando pelo crivo do tempo, e me pergunto de quem ainda nos lembraremos daqui a cinco, dez ou vinte anos. Quem desses milhares de artistas que se construíram e estouraram na era da Internet ainda será lembrado pelas próximas gerações e receberá o selo de relevância que só o tempo consegue dar com a devida propriedade, quando há uma multidão de artistas bons disputando na unha espaço com outro bando de gente que, na verdade, não tem nada de relevante a dizer?

Um retrato claro e completo do que são esses tempos rápidos e líquidos (como dizia Bauman) aconteceu essa semana. Uma famosa influencer deu uma mega festa de aniversário que durou 3 dias, enfiou um monte de gente num resort de luxo, deu de comer e beber pra esse povo todo, gastou uma fortuna! Gente que ela mal conhecia foi convidada pra festa, que juntou à nata dos influencers e algumas subcelebridades.

A Internet inteira divulgou a festa da moça. Artistas renomados, do sertanejo, inclusive, cantaram nessa festa infinita. Eu demorei dois minutos pra entender porque essa moça gastou essa dinheirama numa festa, e quando li o tanto de grana que essa publicidade colocou de volta no seu bolso, tudo fez sentido. Nunca assisti a nada que ela fez, não sei nem direito qual o seu nicho, mas devo admitir: ela é um gênio do marketing (ou está muito bem assessorada, talvez as duas coisas). A festa não foi gasto, foi investimento.

Justamente aí que começou a minha reflexão. Será que a próxima geração vai falar dessa moça? Será que meus filhos, sobrinhos ou netos saberão quem ela é daqui a uns anos? Difícil dizer, embora eu tenha a minha opinião a respeito. Mais além, será que daqui a alguns anos aqueles que são hoje muito pequenos saberão quem foi Marília Mendonça? Pra essa pergunta, já tenho a resposta bem clara: sim!

Lembraremos de Marília Mendonça porque ela foi inovadora, das mais variadas formas. O artista relevante é aquele que rompe paradigmas, que propõe uma nova forma de fazer as coisas, que rompe tabus, que caminha pela árdua seara da vanguarda. Não basta saber cantar (no caso dos cantores, obviamente). É preciso deixar uma marca que transcende o habitual e leva seus pares, ou seja, os outros cantores e compositores, a caminhar em um nível mais acima. O artista relevante jamais é um medíocre, e sim aquele que coloca o sarrafo lá em cima.

Lamentavelmente, muitos dos artistas relevantes nos deixaram cedo demais. A despeito do impacto da tragédia que é morrer jovem e repentinamente, como aconteceu com Cristiano Araújo e Gabriel Diniz, por exemplo, a relevância vem pela consistência (me desculpem os gênios de um hit só) e pela inovação. Quem lembra da imensidão que foram os Mamonas Assassinas, Cazuza, Renato Russo, Amy Winehouse, Elvis Presley, Michael Jackson e tantos outros sabe bem do que eu estou falando. Todos eles foram extremamente relevantes em seus nichos de atuação, não porque morreram cedo, não pela tragédia, mas porque era muito bons e inovadores no que faziam.

Outro acontecimento da semana, como você já deve ter percebido pelo título, foi o Prêmio Multishow, que este ano deu o troféu de cantora do ano a Marília Mendonça. Numa cerimônia emocionante, debaixo de muitas palmas, subiram ao palco para receber o prêmio Dona Ruth e João Gustavo, mãe e irmão de Marília. Junto dela estavam o empresário Wander Oliveira, Luiza Sonza, Ivete Sangalo e Iza. Dona Ruth nos emociona pela força, e Marília herdou isso dela, claramente.

Marília Mendonça não foi homenageada (mais uma vez) porque morreu cedo, porque estava estourada, porque colecionava hits um atrás do outro. A justa homenagem veio porque Marília Mendonça foi tudo menos medíocre, porque foi imensa, inovadora, lutadora, forte, generosa e, ainda por cima, tinha um talento muito, mas muito fora da curva. Fez a diferença na vida de muita gente e seu impacto vai muito além do mero entretenimento. Marília foi um mundo inteiro de elogios dentro de uma pessoa só. Podemos premiá-la todos os anos umas cinco vezes e ainda vai ser pouco.

Sobre Dyala Assef: colunista do Movimento Country, escritora, professora universitária, fã de Marília Mendonça e ouvinte voraz de todos os estilos de boa música.

 

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