Parcerias com Marília Mendonça têm força para alavancar carreiras de artistas?

145

Lançamento de “50 por Cento”, com Naiara Azevedo, após polêmicas, levanta dúvidas sobre o poder das parcerias com Marília Mendonça para alavancar carreiras

Depois de meses de muita polêmica, finalmente foi liberada nas plataformas digitais a faixa “50 por Cento“, parceria entre Naiara Azevedo e a eterna rainha da sofrência Marília Mendonça. O videoclipe, meio murcho, também foi lançado e está disponível no canal oficial de Naiara no YouTube. Toda a confusão acerca da música, que envolveu a família de Marília, você acompanhou aqui no Movimento Country.

Obviamente, as polêmicas em torno da canção atiçaram a curiosidade das pessoas, e isso já se reflete nos números de visualizações e streamings. O videoclipe, por exemplo, precisou de apenas 14 horas para bater 1 milhão de views, o que me parece um número bastante expressivo para qualquer artista. Junte-se ao fato de que a data escolhida para o lançamento coincide com os 4 meses da morte de Marília Mendonça. Uma jogada esperta de Naiara e sua equipe, pois o nome de Marília sempre fica (ainda mais) em alta nessas datas. Mas, será que teremos um hit?

Leia Também:

A faixa “50 por Cento” é boa, possivelmente uma das melhores músicas que Naiara Azevedo já lançou. Assinam a composição a própria Naiara, Vinni Miranda, Rafael Quadros, Jimmy Luzzo, Denner Ferrari e a excelente Waléria Leão. A letra é a evolução do machismo presente em “50 Reais!”, maior hit da carreira de Naiara até agora. Em “50 por cento”, a responsabilidade pelo fracasso no relacionamento é dividida igualmente. Uma forma mais madura de se lidar com a situação. Se vai estourar de verdade, o tempo dirá, mas eu não estou muito esperançosa.

Já falei aqui na coluna muitas vezes sobre as inúmeras qualidades de Marília Mendonça enquanto artista. Ela não tinha apenas uma voz poderosa a seu favor, mas era também excepcional compositora e tinha um talento ímpar para escolher repertório. Naiara Azevedo, por outro lado, tem uma boa voz e tem aprendido a domar os excessos na interpretação. Recentemente, lançou um EP bem melhor que os anteriores de sua carreira, mas, como também já falei aqui, precisa afiar a escolha do repertório e encontrar um ponto de virada na carreira, para que não passe anos sendo uma promessa que nunca deslancha de verdade.

Antes mesmo do lançamento de “50 por Cento”, outros artistas lançaram parcerias póstumas com Marília Mendonça. Fiquei aqui me perguntando qual seria o real impacto dessas canções nas carreiras desses artistas. Uma música com Marília Mendonça é suficiente para alavancar a carreira de quem ainda busca real projeção nacional? Ou, ainda, é capaz de agitar carreiras que andam meio estagnadas? Para me ajudar a refletir sobre isso, fui buscar respostas nas estatísticas. Vamos aos números.

A fila de lançamentos póstumos de músicas com Marília Mendonça começou com “Calculista”, de Dom Vittor e Gustavo (sendo este irmão de Marília e ponto de partida de toda a confusão com Naiara Azevedo). Em pouco mais de 3 meses, a faixa tem modestos quase 15 milhões de streamings no Spotify. Já o videoclipe, onde Marília aparece lindíssima, conta com 16 milhões de views. Música boa de uma dupla bem desconhecida, que pode ser uma bela vitrine mas não sustenta carreira nem os levará ao estrelato. Aguardemos pra ver como eles se saem a médio prazo.

O menos expressivo dentre os lançamentos póstumos é a parceria com a mexicana ex-Rebelde Dulce María, em “Amigos con Derechos”. Não me espanta a faixa não ter tido grande destaque por aqui, já que escapa do sertanejo e os fãs da cantora gringa aqui no Brasil são um nicho bem restrito. O emocionante videoclipe, que à época do lançamento Dulce María afirmou ser uma homenagem à Marília, soma modestos 2,4 milhões de views no YouTube. Pouco se falou sobre a faixa após o seu lançamento. Uma pena, porque a canção é bem bonitinha e Marília é um excelente contraponto para a voz meio infantil da mexicana.

“Amava Nada”, parceria de Marília Mendonça com Lucas Lucco, tem ido bem nas plataformas de streaming e o videoclipe alcançou 13 milhões de visualizações em cerca de um mês. Números interessantes para um Lucas Lucco que andava meio apagado, mas ainda distante de se equiparar a sucessos como a grudenta “Vai Vendo” ou “Mozão”. Lucco me parece um cara legal, mas é um cantor mediano. Conta pontos pra ele o fato de estar se mantendo com certa popularidade já há alguns anos, mas ser gente boa nunca garantiu sucesso nem estabilidade. Além disso, tem uma longa lista de gente fazendo sucesso por aí cantando muito muito mal, e aí Lucco até fica parecendo melhor.

Por fim, vamos falar das parcerias que realmente tiveram êxito. “Vai lá em Casa Hoje“, com os ótimos George Henrique e Rodrigo, estourou, se mantendo por muitas semanas entre as mais tocadas em rádio e nas plataformas digitais. Acompanho a dupla há alguns anos, desde que gravaram com Henrique e Juliano a ótima “Seu Oposto“, e acho que eles têm qualidade para ir mais longe. Torço muito que a exposição que a parceria com Marília Mendonça trouxe seja aproveitada para consolidar nacionalmente uma já longa carreira e que tem vários trabalhos muito bons.

Hugo e Guilherme também divulgaram uma faixa póstuma com Marília Mendonça que vai indo muito bem. “Mal Feito” soma mais de 100 milhões de reproduções nas plataformas digitais e, mesmo um mês após seu lançamento, não deixou as paradas. A dupla tem tido grande destaque nos últimos anos, e em 2021 trabalhou uma das músicas mais bonitas (e tocadas) de 2021, “Oi Deus“. A parceria com Marília é apenas um extra em uma carreira que caminha para se firmar.

A influência de Marília Mendonça no mercado sertanejo segue forte mesmo após sua trágica e precoce morte, mas não creio que seu nome sozinho tenha força para alavancar carreiras, embora possa, de fato, ajudar. Não podemos esquecer que a bem sucedida gestão da carreira de um artista é uma equação com muitas variáveis, que requer qualidade sonora, bom repertório, decisões estratégicas e escolhas inteligentes. Uns estão mais encaminhados que outros, mas nem mesmo a rainha Marília conseguirá salvar alguém.

Sobre Dyala Assef: colunista do Movimento Country, professora universitária, e ouvinte voraz de todos os estilos de boa música.