Será que a variante Ômicron tem força para parar a música sertaneja?

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Com o avanço da variante Ômicron e vários artistas sertanejos com shows cancelados em virtude da Covid-19, será que a música sertaneja vai parar de novo?

É, meus amigos, não tem sido nada fácil! Começou 2022, muita gente animada com o retorno dos eventos presenciais, incluindo os shows de artistas sertanejos. Circulam amplamente nas redes sociais os vídeos dos shows, sempre lotados e com o público animado. Ao mesmo tempo, com a circulação da variante Ômicron, a curva de novos casos de Covid-19 está em ascensão e diversos cantores sertanejos têm cancelado shows por conta de infecção própria ou de algum membro da equipe. Será que voltamos cedo demais?

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Desde que a variante Ômicron deu as caras, lá na África, ainda em 2021, acompanho especialistas alertando para sua altíssima transmissibilidade. Se alguém duvidava dos alertas médicos, tá aí a prova. O número de novas infecções sobe em progressão geométrica e as autoridades de saúde já debatem sobre como enfrentar a nova onda. Confesso pra vocês que sigo assustada.

Sim, eu tomei a vacina. Duas doses. Já estou com o braço pronto pra terceira. Tomarei quantas forem necessárias sem reclamar. Faço isso por mim e pelo coletivo. Todavia, a insistência de alguns em fugir da vacina cobra um preço alto, inclusive financeiro, e todos pagam. Cidades já ensaiam proibir eventos mais uma vez. Onde eu moro, capital do Estado, 2 milhões de habitantes, 3ª maior taxa de transmissão do país, a prefeitura já diminuiu a ocupação de bares, restaurantes, shoppings e afins. Onde essa corda arrebenta?

Não vou falar de saúde pública nem de internamentos, a imprensa geral tá aí pra isso. Vamos aqui falar de música, ou ainda, do impacto da Covid na música sertaneja. Tem uma longa lista de cantores sertanejos infectados. Tem surtos da doença nas equipes. Tem pais e mães de família arriscando a ficar sem trabalho, mais uma vez. As dimensões e prejuízos desta pandemia são inomináveis e chegam a todos os segmentos, mas a galera da arte e cultura tem penado mais.

Saindo dos impactos mais óbvios, tem fã com saudade que não vai poder reencontrar o artista preferido. Só quem é realmente fã de alguém sabe o quanto essa frase aí dói no nosso pobre coração. Eu tinha planos de rever a dupla favorita aqui na minha cidade, no começo de fevereiro, mas não sei se a Ômicron vai deixar. Outra dimensão desse caos é não poder fazer planos. Num piscar de olhos, tudo pode mudar.

O grande problema é que não tem como fazer show com milhares de pessoas no mesmo espaço respeitando medidas sanitárias. Cansei de ver casa de show e produtora de eventos dizendo que estão respeitando as regras. Não tem como, me desculpem! Pisar num show é correr um risco enorme. Ponto final. Há os que se arriscam porque precisam. Há os que se arriscam por negar o problema. Não estou nem num grupo e nem no outro. Logo, de novo, estou em casa. Viva o privilégio do home office!

Quando 2020 parou todo o setor de eventos e os artistas se viram obrigados a se comunicar com seu público por meio das lives, que por um tempo foram uma alternativa interessante mas que hoje todo mundo torce o nariz, os investimentos na música sertaneja minguaram. Muita gente em casa, a turma da pisadinha e do funk ganhou espaço. Mais tempo livre, mais gente ouvindo novidades e se abrindo para novos ritmos. Houve quem tenha dito que seria um golpe derradeiro na música sertaneja, que já dava alguns sinais de cansaço. Aquela fadiga de quem correu uma maratona e venceu (desculpa, meu coração é sertanejo, fazer o quê?).

Acho que o poder da internet, redes sociais e aplicativos de dancinhas, vídeos curtos e coisas do tipo é inegável. Tem artista que se constrói no Spotify e no YouTube. Mas eu, antiga que sou, creio também no poder das rádios, onde a música sertaneja reina absoluta ainda. E vejo nos shows um bom termômetro para compreender o alcance de um artista. Meu coração ficou quentinho ao ver os sertanejos voltando com tudo.

A Ômicron vai parar a música sertaneja de novo? Honestamente, acho que não. A variante da Covid tem poder pra enfraquecer a música sertaneja? Mil vezes não. Acho que nenhum setor vai parar, mesmo com esse número bem assustador de novos casos. Se alguém parar, vai ser por pouco tempo.

Na música sertaneja, como em tudo, nas artes, na comida, nas roupas, nos acessórios e até na arquitetura, também tem moda. Moda passa. A qualidade permanece. Além disso, já tem uma galera da música sertaneja atenta à necessidade de se reinventar e firmar parcerias com os novos que surgem. E tem uma outra galera saudosa de letras românticas a la anos 90 que também tem crescido. Sertanejos, uni-vos! A Covid pode parar alguns shows (se preciso for, eu acho que tem que parar mesmo, tá pessoal). A gente cai, mas levanta, sempre!

Sobre Dyala Assef: colunista do Movimento Country, escritora, professora universitária e ouvinte voraz de todos os estilos de boa música.