Queernejo ganha força e passa a ter espaço exclusivo no Movimento Country

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Queernejo, movimento musical derivado do sertanejo, busca maior visibilidade no cenário nacional e passa a contar com espaço exclusivo no Movimento Country

Imagine ser pioneiro e inovador na profissão que você escolheu e, por isso, ter que trilhar caminhos que poucos percorreram antes. Imagine também tentar se destacar em um ambiente, muitas vezes, preconceituoso e avesso a essa inovação, onde o usual é justamente o oposto daquilo que você propõe. Agora imagine tudo isso acontecendo ao mesmo tempo, e quem sabe você comece a entender os enormes desafios impostos ao Queernejo, movimento musical derivado do sertanejo que busca dar voz aos artistas LGBTQIA+ e também trazer representatividade a esse público.

O Queernejo surge, ao mesmo tempo, da possibilidade de amplificar o espaço para novos talentos no meio musical e da urgente necessidade de se debater questões inerentes ao universo LGBTQIA+ dentro do meio sertanejo, sabidamente dominado pela pauta heteronormativa, representada pelo homem branco e heterossexual, vindo do interior do Brasil. Não precisamos ir muito longe para relembrar esse estereótipo claramente retratado pelo sertanejo Rodolffo, no BBB 21, cujas declarações polêmicas deram bastante o que falar na época. Ainda assim, o sucesso da dupla com Israel a partir da vitrine do programa tem sido, de fato, estrondoso.

Um dos precursores do Queernejo é o cantor Gabeu, filho do sertanejo Solimões, da dupla com Rio Negro. Já li algumas entrevistas dele contando como surgiu a ideia do movimento, que vem para ocupar um nicho do sertanejo muito carente de representantes e que chama a atenção para a importância de se analisar de forma crítica o sertanejo convencional enquanto segmento, muitas vezes, segregador e que dá pouco espaço de trabalho e pouca visibilidade para a galera LGBTQIA+.

Gabeu sabe que não deu início ao Queernejo sozinho. Além dele, podemos mencionar Zerzil, Gali Galó (que se declara não binária), a transexual Alice Marcone e a maravilhosa dragqueen Reddy Allor, dona de uma bela voz. São artistas talentosos que precisam ser ouvidos, precisam ganhar espaço, até porque há um nicho de mercado considerável esperando por eles de braços abertos. Ignorar isso não só vem na contramão da diversidade crescente da nossa sociedade, mas me parece comercialmente pouco inteligente.

Se você não conhece nenhuma canção desses artistas que mencionei acima, recomendo que você comece a explorar por “Queda D’Água”, um belo dueto entre Gabeu, que também assina como compositor, e Reddy Allor. Vocais muito interessantes e uma letra poderosa de força e superação. A música merecia um videoclipe e faz parte de “Agropoc”, álbum de Gabeu lançado recentemente, em agosto de 2021. Menção honrosa para a divertida “Meu Cafézim”, parceria entre Gali Galó e Zerzil.


Se você buscar saber mais sobre o Queernejo e os artistas que dele fazem parte, verá muito brilho, figurinos extravagantes, maquiagens chamativas e projetos visuais de divulgação que fogem muito do convencional. Não poderia ser diferente. Por outro lado, reduzir o trabalho desses artistas a essa estética extravagante é olhar para o movimento de forma muito rasa. Claro que brilhos e purpurinas são parte do universo LGBTQIA+, mas tem muito mais por trás de tudo isso.

Se em parte a extravagância vem no pacote, por outro lado vejo como uma estratégia para chamar atenção em um mercado extremamente competitivo e que não tem tradição de ser gentil com artistas LGBTQIA+ autodeclarados. Lembro da famosíssima cantora e compositora norte-americana Lady Gaga, cujo enorme talento, para muitos, só ficou óbvio quando do lançamento do filme “Nasce Uma Estrela” e da sua música carro-chefe “Shallow”. Gaga é maravilhosa com ou sem purpurina, mas precisou lançar mão da estética muito extravagante no início de carreira, a fim de ocupar um espaço (diga-se, muito merecido) no show business. 

Escrever sobre o Queernejo é desafiador porque compreendo que este não é o meu lugar de fala, pois eu me declaro mulher heterossexual. Talvez por isso mesmo seja tão importante, porque não se trata de nenhuma forma de auto militância. Assim como eu não preciso ser preta para repudiar qualquer tipo de racismo, não preciso ser lésbica para compreender e defender a importância da representatividade da comunidade LGBTQIA+ enquanto artistas e também enquanto público que consome o trabalho de tais artistas.

Escrevo como colunista especializada, como amante de música e admiradora do sertanejo enquanto manifestação musical. E nesse que é o meu lugar de fala, entendo que a música deve ser democrática e dar espaço para todos as bons artistas, como já disse nesta coluna anteriormente. Escrevo como ser humano que acolhe a diversidade e não discrimina quem quer que seja em função de ser diferente de mim. E, por fim, escrevo como representante do Movimento Country, maior portal brasileiro de música sertaneja.

Entendemos que os artistas que representam o Queernejo encontram pouco espaço de divulgação de seu trabalho e devem ter maior visibilidade no universo sertanejo. Em função de tudo isso, e porque a gente acredita na qualidade do movimento Queernejo, a partir de agora, nosso portal dará espaço para a divulgação do trabalho dos artistas do Queernejo. Sejam todos muito bem vindos e contem com a gente! Estamos juntos para fazer do sertanejo um universo mais plural, democrático e representativo.

Sobre Dyala Assef: Escritora e colunista do Movimento Country, professora universitária, cantora amadora nas horas vagas e amante de todos os tipos de boa música.

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