Quem ganha e quem perde com as infinitas polêmicas envolvendo o Cabaré?

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Projeto “Cabaré“, que se afunda em polêmicas e pode estar com os dias contados, mostra o declínio musical de grandes nomes do sertanejo

Que Leonardo e Eduardo Costa fizeram história com o projeto “Cabaré” não é novidade pra ninguém. Os cantores tinham uma grande amizade fora do palco e a sintonia musical entre os artistas era tanta que até hoje muitos fãs não superaram a saída de Costa do projeto. Convém lembrar que os cantores acabaram se desentendendo após a fatídica live “Cabaré” que foi marcada por polêmicas e bebedeira entre os astros.

De lá pra cá, Leonardo e Eduardo Costa seguiram caminhos opostos na música sertaneja. Enquanto Leonardo continuou o “Cabaré” com Bruno e Marrone, o ex amigo se juntou a Ralf no projeto “Mitos” de 2021, que teve sua turnê cancelada por problemas nos bastidores. O que mais me chama a atenção, porém, é a produção musical de Leonardo e de Eduardo Costa nesse período, pois é de música, mais uma vez, que eu quero falar esta semana.

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A importância de Leonardo para a música sertaneja é inquestionável, embora eu confesso que gostava mais dele quando tinha o contraponto de sensatez do irmão Leandro. Quase tudo o que Leonardo fez nos últimos tempos virou polêmica. As lives, as bebedeiras, as brincadeiras infelizes, às vezes até de outras pessoas, mas que acabaram respingando nele.

O que menos rendeu assunto em se tratando de Leonardo foi a sua produção musical. É muito comum que artistas que estão no cenário há mais tempo se apoiem bastante nos sucessos arrebatadores do passado, e o público espera isso deles, inclusive. Por outro lado, acho que faz parte do trabalho do artista se atualizar, se reinventar, mas sem perder a essência. Um beijo pro Xororó, rei absoluto nesses (e em outros) quesitos.

Leonardo ficou muito tempo sem produzir novidades e lançou no final de 2021 um EP ruim de doer, muito aquém de trabalhos que já desenvolveu. São 4 faixas que eu sofri pra ouvir até o final. A voz de antigamente mandou lembranças também. Ok, eu sei, as pessoas envelhecem, é natural, mas até Zezé Di Camargo, que tem um problema sério na voz, mandou (muito) melhor no lançamento recente.

Bruno e Marrone, atuais parceiros de Leonardo no Cabaré, também não lançam nada de muito relevante faz tempo. Temos o álbum “Exatamente Agora”, de 2021, ofuscado pelas bebedeiras e polêmicas entre os dois cantores da dupla durante suas lives. Temos o excelente single “Facas”, de 2020, com Diego e Victor Hugo, que tocou bastante. Bruno é um excepcional primeira voz, mas a última live do Cabaré me deixou assustada. Será que a voz vai ladeira abaixo? O álcool entra e voz não sai? Pra compensar, tome drive em cada frase. Exageros, um atrás do outro.

Todos esses cantores são profissionais da música, e deveriam se comportar como tal. Precisa só beber água durante as apresentações? Não, mas precisa segurar a onda e saber que quando a qualidade do trabalho fica prejudicada por tanta bebida, é hora de parar, em respeito ao público que paga suas contas e os colocou nesse patamar onde estão. Vale para todos os sertanejos que passam da conta. E são muitos, melhor nem citar outros.

Polêmicas à parte, voltando ao assunto música, que é o mais importante, vamos falar dos trabalhos mais recentes de Eduardo Costa, que deve estar rindo alto vendo o Cabaré pegar fogo. Ele nunca parou de trabalhar na pandemia, está em boa fase na carreira e os números de visualizações e streamings evidenciam bem isso, como te contamos esta semana aqui no Movimento Country. Eduardo Costa pode não ter lançado muitas inéditas recentemente, mas dá aula sobre como fazer de limões azedos uma bela limonada.

Se você olhar a discografia oficial de Eduardo Costa pós Cabaré, verá que ele transformou lives em álbuns e lançou trabalhos repletos de regravações de clássicos e canções do próprio repertório que foram sucesso anos atrás. Ainda que eu sinta falta de faixas inéditas, Costa é muito inteligente nas escolhas que faz. O álbum “Pantanal” é excelente e o lançamento mais recente, “Fora da Lei”, traz um compilado de canções muito bem escolhidas e que transitam entre vários estilos musicais.

O álbum “Fora da Lei” traz canções icônicas que vão desde regravações de Chico Buarque (Iolanda) e Kid Abelha (Eu Tive um Sonho) até João Paulo e Daniel (Estou Apaixonado, cuja original é em espanhol, de Donato & Stefano, ambas de 1996), Chitãozinho e Xororó (Pode Ser Pra Valer, regravada por Maria Cecília e Rodolfo em 2008). Até o próprio Leonardo está presente no álbum, com a regravação, por exemplo, de “Abandonado” (pra mim, até hoje, uma das melhores do seu repertório).

Menção honrosa e palmas de pé para “Mil Vezes Cantarei“, do Trio Parada Dura e já regravada por Rick e Renner em 1998 e, posteriormente, por Gusttavo Lima, no DVD Embaixador. A faixa ganhou um arranjo lindo, e o dueto vocal de alta qualidade, com a excepcional dupla Edy Brito e Samuel, é um show à parte. Com esse álbum, Eduardo Costa consegue provar que é um artista inteligente e versátil, e a roupagem coesa dos arranjos coroa o bom trabalho.

Sigo achando que a obra musical dos cantores deve ser bem mais relevante dos que as polêmicas que protagonizam. Quando isso não ocorre, ou a carreira está em baixa, ou o artista é ruim mesmo, e se a gente não falar da vida pessoal e das polêmicas, sobra pouco para comentar. Este não é o caso de nenhum artista mencionado aqui hoje. Todos são de grande importância para o sertanejo e já produziram trabalhos de alta qualidade. Quero voltar aqui pra falar de algum bom novo trabalho do Leonardo, ou um novo EP maravilhoso de Bruno e Marrone, ou de uma live Cabaré que se destaca pela boa música.

Infelizmente, por enquanto, só dá mesmo pra falar bem musicalmente de Eduardo Costa. Uma vez fora do Cabaré, creio que ele ganhe com essas polêmicas todas, porque a confusão atual abafa a sua própria (que já faz tempo, diga-se de passagem). Talvez Leonardo e Bruno e Marrone ganhem com a venda de ingressos, já que a turnê Cabaré segue com vários shows programados. Eles, porém, perdem em relevância como artistas no cenário atual. E, por fim, quem perde mais, quem perde mesmo, é a música sertaneja.

Sobre Dyala Assef: colunista do Movimento Country, professora universitária, e ouvinte voraz de todos os estilos de boa música.