Súditos sem sua rainha: o vazio e o legado deixados por Marília Mendonça

A morte trágica de Marília Mendonça evidenciou a artista brilhante e a mulher empoderada que encantou o Brasil e deixou uma multidão de súditos sem sua rainha

Na tarde da última sexta-feira (05), eu estava trabalhando em uma matéria quando recebi de uma amiga a informação sobre o acidente com o avião de Marília Mendonça. Imediatamente, liguei a TV e passei a acompanhar aquela imensa agonia, até a confirmação do desfecho trágico. Marília se foi, e nós ficamos. Ficamos órfãos e vazios,  ficamos como súditos que perdem sua rainha.

Não que eu seja a pessoa mais otimista do mundo, mas sou da turma que acha que toda situação ruim precisa deixar um ensinamento, senão é apenas sofrimento inútil. Mas como tirar lições de uma tragédia dessa proporção? Se não há como ver lado bom quando pessoas amadas se vão para sempre, ainda mais de forma tão chocante, ainda mais tão cedo, ainda mais quando se cala tanto talento, acho que já podemos falar em legado. Marília nos deixa inúmeros exemplos de sua grandiosidade, que se transformam em ensinamentos que extrapolam o segmento sertanejo.

Nos últimos dias, muito foi dito e escrito sobre Marília Mendonça, e eu me peguei fugindo da escrita por achar que nada que eu pudesse dizer aqui seria de fato relevante em face dessa perda. O filho pequeno que vai crescer sem a mãe. A mãe que precisa velar a filha e voltar pra uma casa silenciosa. Os amigos íntimos que perderam sua parceira de todas as horas. Um país inteiro que ficou sem sua rainha da sofrência. Não há canção, crítica musical ou opinião que não se apequene diante de tanta dor.

Eu conheci Marília quando ela era ainda muito pequena aos nossos olhos, mas já sabia no seu íntimo que poderia conquistar o mundo. Quando ainda nem sabíamos que precisávamos de uma rainha. Já falei aqui que sou fã de Henrique & Juliano, e foi por causa deles que soube da existência da Marília Mendonça compositora, lá no começo de 2015. São composições dela as conhecidíssimas “Cuida Bem Dela” e “Até Você Voltar”, além de muitas outras canções famosas deles. Marília mal saíra da adolescência, tinha 10 mil seguidores no Instagram e eu já a admirava. Ela sempre teve essa estrela diferente, sempre foi muito fora da curva.

Ainda naquele ano ela se lançou cantora e eu assisti ao vídeo de “Impasse”, do primeiro DVD “Marília Mendonça Ao Vivo” muitas e muitas vezes. Aquela sintonia entre ela e Henrique & Juliano que fica óbvia no vídeo, e no dia do velório o país inteiro pôde ver o que eu acompanhei por anos. Aliás, tive duas oportunidades de assistir a um show de Marília, a primeira em 2016, no Festeja Curitiba. Ela se juntou a Henrique & Juliano no palco para cantar “A Flor e o Beija-flor” e assim emocionaram as 30 mil pessoas presentes. Todos ficaram arrepiados. Se você não conhece a canção, deixo o vídeo abaixo.

Foi mais ou menos naquela época que o Brasil inteiro se rendia à vossa majestade, a rainha da sofrência. Já no final de agosto de 2019, fui assistir a uma Marília super grávida no Teatro Positivo, aqui em Curitiba. Faltavam 3 meses e meio para Léo chegar ao mundo. Ela me pareceu mais solta, mais mulher, mais segura, mais dona de si, e ali eu entendi que, mesmo tendo sido sempre grandiosa, ainda havia espaço para Marília crescer.

O resto é história. Marília ficou enorme, os números e as conquistas são impressionantes, prêmios e reconhecimento de artistas de todos os gêneros. Marília não cabia em um ritmo só. As demonstrações públicas de afeto e pesar que tomaram o país, as emissoras de televisão e as redes sociais ainda são pequenas diante da enormidade dessa artista. Talvez ainda não entendamos tudo o que Marília deixou para nós.

Marília Mendonça flertou com muitos ritmos. Gravou pagode e MPB. Alçou o sertanejo a um novo patamar. Quebrou paradigmas, abriu caminho para a necessária visibilidade das mulheres, em um universo por décadas dominado pelo masculino. Temos Roberta Miranda, antes dela as Irmãs Galvão, sem dúvida fantásticas à sua maneira, mas precisávamos de uma Marília Mendonça para realmente dar um chacoalho definitivo. Atrás dela vieram muitas, e estou certa de que muitas mais ainda virão. O feminejo não é mero modismo.

Marília cantou as dores, os amores e as alegrias das mulheres com a verdade de que sempre carecemos. Mostrou que mulheres podem assumir o controle do próprio destino, podem ser bem sucedidas, fazer fortuna, casar e descasar, podem ser mães excelentes e profissionais idem, tudo ao mesmo tempo. Mulheres riem e choram, e devem ser as donas dos próprios narizes. Ela ajudou a empoderar um sem número de mulheres e mostrou a todos do quanto somos capazes. Isso é maior do que qualquer acorde.

Desejo do fundo do meu coração que um dia o Léo cresça e entenda a exata dimensão de quem foi sua mãe. Desejo que a banda e a equipe, que já passaram pelo terror de perder Cristiano Araújo, consigam se recolocar no mercado e se reerguer. Desejo que o nome de Marília seja honrado pelo sertanejo depois que passarem o choque e a comoção. Desejo que sua família seja sempre amparada e dona Ruth tenha consolo quando tudo se aquietar. Seu legado é para sempre! Esquecida, tenho certeza, ela nunca será! Obrigada por tanto, rainha Marília! Voa, vai compor e cantar no colo de Deus.

Sobre Dyala Assef: Escritora e colunista do Movimento Country, professora universitária, cantora amadora nas horas vagas e amante de todos os tipos de boa música.